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Introdução ao estudo da Filosofia

  • A Filosofia surgiu na Grécia Antiga, como resultado de um conjunto de circunstâncias, incluindo uma série de particularidades socioeconômicas (prosperidade, contato com diversos povos através da navegação).
  • No seu nascimento, o pensamento filosófico visava a uma explicação racional do mundo natural. Nesse sentido, o pensamento filosófico se diferenciava do pensamento mítico, cujas explicações não dependiam de uma confirmação racional.
  • O pensamento filosófico se diferencia do senso comum e não deve ser confundido com outros saberes.

Exercício de introdução

A dúvida é uma atitude que contribui para o surgimento do pensamento filosófico moderno. Neste comportamento, a verdade é atingida através da supressão provisória de todo conhecimento, que passa a ser considerado como mera opinião. A dúvida metódica aguça o espírito crítico próprio da Filosofia.

BORNHEIM, Gerd A. Introdução ao filosofar. Porto Alegre: Globo, 1970. p. 11. Adaptado.

A partir do texto, é correto afirmar que:

a) a Filosofia estabelece que opinião, conhecimento e verdade são conceitos equivalentes.
b) a dúvida é necessária para o pensamento filosófico, por ser espontânea e dispensar o rigor metodológico.
c) o espírito crítico é uma característica da Filosofia e surge quando opiniões e verdades são coincidentes.
d) a dúvida, o questionamento rigoroso e o espírito crítico são fundamentos do pensamento filosófico moderno.

Gabarito: D

Vamos aprender um pouco mais sobre Filosofia?

Texto I

O que é Filosofia?

À primeira vista, é muito fácil definir o que é Filosofia: basta lembrar das origens gregas do termo: philos (amigo) + sophia (sabedoria). Porém; bem mais difícil é tentar explicar para que ela serve.
De fato, a Filosofia não visa a resultados práticos ou imediatos, mas abre espaço justamente para perguntas como: por que todas as coisas devem ter uma finalidade prática?

A Filosofia pode ser vista como um tipo de conhecimento que se justifica por si mesmo. Faz parte de nossa cultura pensar no conhecimento como instrumento para a realização de coisas materiais. Porém, essa ideia nem sempre acompanhou o ser humano, tendo ascendido, principalmente, a partir do século XVIII, com as mudanças decorrentes da Revolução Industrial, que transformou o conhecimento em técnica, utilizando-o na produção de objetos em larga escala. Esse processo afetou nossa vida e mudou nossos hábitos e costumes, fazendo com que considerássemos a utilidade prática como única função do conhecimento.

Criando problemas

“É por força de seu maravilhamento que os seres humanos começam agora a filosofar e, originalmente, começaram a filosofar.” Essa frase do filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C), resume bem o sentido da Filosofia: ancorada em nossa capacidade de problematizar, ela elucida questões fundamentais para as quais normalmente não encontramos respostas em nosso cotidiano. Isso inclui o questionamento sobre si mesmo.

Sócrates (470-399 a.C), pensador grego, considerado por muitos uma espécie de “pai da Filosofia”, tinha como um de seus princípios a máxima: “Conhece-te a ti mesmo”.

Para atestarmos a complexidade dessa tarefa designada por Sócrates, imagine a seguinte situação: você acorda pela manhã e uma de suas primeiras experiências diárias é olhar-se no espelho. Durante o dia, muitas vezes você usa a expressão “eu”; quando alguém pergunta “quem é você?” você diz seu nome e relaciona seu nome com aquela imagem do espelho à qual você está acostumado. Mas, afinal, o que um nome e uma imagem dizem sobre você? Certamente existem muitos outros atributos além disso, virtudes e defeitos. Será que você sabe exatamente quais são? Você alguma vez já se surpreendeu quando alguém disse que você era uma coisa que você nunca imaginou que fosse? Em outras palavras: quanto de si mesmo você conhece?

Quando alguém diz que você é “inteligente” ou “bonito”, ou quando diz “somos amigos”, o que isso significa realmente? O que é inteligência, beleza? O que é amizade? O sentido dessas palavras é sempre o mesmo ou muda de pessoa para pessoa ou mesmo ao longo do tempo?

A Filosofia não oferece respostas prontas para essas questões; filosofar não é lidar com um conjunto pronto e acabado de conhecimentos que se aprende, mas uma forma de encarar o mundo, uma busca e um questionamento permanentes.

Conceito, reflexão e crítica

O conceito é a base do pensamento filosófico. Criamos conceitos para nos referir mais precisamente a objetos, ideias ou sentimentos. Para isso, é necessário que cada coisa seja designada naquilo que lhe é fundamental. Em outras palavras, conceitos são abstrações, isto é, modelos abstratos que podem ser usados sempre que tentarmos identificar ou entender os diversos aspectos da realidade (e de nós mesmos). Pode-se dizer que a Filosofia é essencialmente a atividade de criar conceitos.

Pensemos, por exemplo, na ideia de liberdade. Em discussões familiares, em relacionamentos, no ambiente de trabalho, muitas vezes as pessoas dizem que querem ser mais livres. Mas o que significa liberdade? O filósofo alemão Immanuel Kant sustentou que a ação livre deve ser autônoma, ou seja, se submeter apenas à lei que surja da vontade do sujeito que a manifeste. Com isso, podemos dizer que uma ação que se guie pelas leis das vontades dos outros (por exemplo, de uma autoridade) não será livre. O conceito permite analisar situações específicas com mais precisão, bem como verificar se dada sociedade favorece ou não a liberdade a seus cidadãos.

Outra característica do pensamento filosófico é que ele depende de um procedimento ou método baseado na reflexão, que deve ser entendida como algo mais do que um simples pensamento. Conhecemos a palavra “reflexão” do nosso vocabulário de uso cotidiano, sendo comumente empregada como sinônimo de “pensar”, ou do vocabulário da Física, referindo-se à imagem que o espelho nos devolve, por exemplo. No entanto, em Filosofia, reflexão significa um pensamento que tem a capacidade de voltar-se contra si mesmo. Isso quer dizer que a Filosofia procura sempre questionar aquilo que já foi pensado, ou seja, pensar sobre o próprio pensamento. Dessa forma, não se prende a dogmas, a ideias indiscutíveis.

Mas, ao mesmo tempo que rejeita o dogmatismo (a crença inegável num sistema), o pensamento filosófico quase sempre rejeita o ceticismo (no sentido da impossibilidade de se chegar a alguma certeza). Por isso se diz que a reflexão filosófica é crítica. Na linguagem cotidiana, costumamos ligar a palavra “crítica” ao ato de “falar mal” ou “apontar defeitos”, mas esse não é o sentido filosófico. Para a Filosofia, o exercício crítico significa examinar minuciosamente e, sobretudo, com critério e rigor, sem extremismos e considerando a diversidade de opiniões. Esse exame pode se voltar para as leis de um país, uma obra de arte ou determinadas práticas científicas.

Por exemplo, em certo sentido, quase todos criticam o “governo”, qualquer que seja ele. De modo geral, isso significa desqualificar o governante do momento, dizer que não acredita na sua propaganda, e chegar a simplificações como “todo político é ladrão”. Já em um sentido filosófico, criticar o governo envolveria a ideia de desmascarar o poder. Um exame filosófico pensaria questões como: qual é o papel de um governante; quais são as funções de cada poder do Estado; quais são os interesses dos grupos que apoiam ou são contra o governo; ou quais são as prioridades do país ou da cidade em termos de abrir caminhos para a liberdade humana? Apenas repetir acusações fáceis não é, certamente, filosofar – o que implica, muitas vezes, estar na contramão do lugar comum. Como diz o pensador contemporâneo Merleau-Ponty em sua obra Elogio à Filosofia, o filósofo chocaria menos se fosse simplesmente rebelde, pois no fundo todos sabem que o mundo é inaceitável do jeito que é. O filósofo choca porque comete a “imperdoável ofensa” de fazer os outros duvidarem de si mesmos e de suas opiniões.

A Grécia e a Filosofia

A civilização grega foi talvez a primeira, na Antiguidade, a agrupar um conjunto de características muito peculiares, que se relacionam ao surgimento da Filosofia. Em primeiro lugar, a navegação no mar Mediterrâneo. Vivendo em uma terra pobre e em contato com o mar, os gregos se dedicaram a viagens marítimas, voltadas para o comércio e possibilitando amplo deslocamento da população. Nessas viagens, os gregos foram percebendo que a natureza sempre seguia as mesmas “regras”, não importando o local onde estivessem. Com o decorrer do tempo, essa percepção tornou-se essencial para desmistificar deuses e criaturas fantásticas que existiam em lendas e mitos.

O comércio com locais distantes e povos diversos estimulou o emprego da moeda e a disseminação da escrita. Ao substituir a troca entre mercadorias, a moeda ajudou a desenvolver o raciocínio abstrato, elaborando cálculos de valor. Certo desenvolvimento da abstração também pode ser visto no advento da escrita fonética, em que cada letra representa um som, o que faz com que as palavras percam seu caráter mágico de representação de um objeto ou uma ideia (palavra = coisa) e passem a ser apenas o seu signo (palavra = signo), dessacralizando o uso da escrita e estimulando o raciocínio.

A riqueza trazida pelo comércio e a utilização em larga escala de escravos tornaram possível o ócio, o tempo livre, que podia ser dedicado à atividade contemplativa, estimulando o espírito de observação. De forma semelhante, o aperfeiçoamento do calendário, baseado na observação da Natureza (repetição das estações do ano, das fases da lua), deu ao tempo um caráter natural e não divino.

A Grécia é, assim, o berço da democracia. Entre suas inovações políticas, estão os conceitos de isonomia e isegoria. Ambas significam igualdade: a primeira em relação às leis; e a segunda, em relação ao direito de fala. A Filosofia se valeu do ambiente de ricas discussões das cidades gregas.

Tais condições, sozinhas, não explicam por que a Filosofia nasceu na Grécia Antiga, mas, certamente, apontam aspectos que contribuíram para o seu desenvolvimento.
Texto II

Mito e Filosofia

Origens do mito

Afirmar que a Filosofia foi criada pelos gregos significa dizer que eles foram os primeiros a propor que o mundo existia e as coisas aconteciam não apenas devido à ação dos deuses. Em outras palavras, os gregos explicaram o mundo a partir do logos, da palavra racional. O mito, por sua vez, é uma forma de explicação da realidade anterior à Filosofia e que não se baseia na racionalidade.
Todas as culturas – inclusive a grega – criaram seus mitos, associando a origem do mundo, os fenômenos da natureza e os grandes acontecimentos da vida à atuação de forças exteriores à realidade concreta. O mito se originou do medo e do espanto do ser humano diante de uma natureza potencialmente hostil. Por isso, mais do que para explicar o mundo, o mito serviu para acalmar a ansiedade humana em relação aos mistérios da criação.

Ao contrário da Filosofia, que se funda na racionalidade, o mito se baseia, sobretudo, na intuição, e incorpora ao mesmo tempo imaginação e emotividade. Segue um exemplo de mito proveniente do Egito Antigo:

Filho de Urano (o Céu) e de Gaia (a Terra), marido de Tetis e pai das Oceanides e dos deuses dos rios.
Na versão mais antiga da lenda, Oceano era um rio imenso que circundava a terra, tido como o progenitor dos deuses e a origem da vida; dele nasceram todos os outros rios, inclusive o Estige e os demais rios do inferno. Suas nascentes situavam-se nos confins do Ocidente, onde Hélios (o Sol) se banhava e as estrelas repousavam; ele começava nas colunas de Héracles (o atual estreito de Gibraltar) e passava pelo Eísion e pelo Hades, marcando os limites da terra em todas as direções. Mais tarde, com o desenvolvimento dos conhecimentos geográficos, a denominação “Oceano” restringiu-se ao Oceano Atlântico.

KURY, Mário da Gama. Dicionário de mitologia grega e romana. 8. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. p. 288.

Algumas características dessa narrativa permitem sua identificação como um mito. Em primeiro lugar, o fato narrado ocorreu em um tempo passado indeterminado, em que deuses habitavam a Terra, ou seja, em um tempo fundamentalmente diferente do nosso. Em segundo lugar, a narrativa mítica baseia-se na imaginação; por isso quase sempre assume um caráter de exagero e de inverossimilhança em relação à realidade concreta. Finalmente, o mito está ligado aos fenômenos da natureza: o céu a terra, o oceano e os rios fazem parte da explicação sobre a origem da vida. Contudo, esses elementos aparecem personificados em figuras divinas semelhantes a seres humanos.

A Filosofia, ao contrário do mito, aborda coisas que ocorrem em um tempo conhecido e possível, bem como sua permanência e mudança. Ao mesmo tempo, não admite o incompreensível, buscando sempre explicações racionais, ao alcance de qualquer indivíduo. Dessa forma, explica a natureza dentro dessa mesma perspectiva: racional e acessível.

Mas não se deve considerar o mito apenas uma narrativa “inocente” e que foi definitivamente superada pela Filosofia. Ao incluir elementos como a intuição e a emotividade, o mito é uma forma de conhecimento válida, porém diferente daquela que chamamos racional.

Geralmente associa-se o mito à religião e acredita-se que sua força advém do fato de muitas vezes ser transmitido por um narrador que tem algum tipo de autoridade (por exemplo, um religioso). Mas deve-se lembrar que, embora durante muito tempo eles tenham se confundido, o pensamento mítico transcende o religioso. Se não fosse isso, como explicar a força com que certos mitos emergem na contemporaneidade? O mito do herói, por exemplo, costuma levar multidões ao cinema.

A jornada do herói é um conceito criado pelo antropólogo Joseph Campbell, cuja teoria propõe que quase todas as histórias trabalham com uma estrutura de Voteiro semelhante. No monomito, como também é chamada essa teoria, a história trabalharia em cima de três eixos narrativos centrais: o chamado para a aventura, o conflito e o retorno para casa. No filme O Senhor dos Anéis (2001, dir, Peter Jackson), obra adaptada do livro de J, R. R. Tolkíen, Frodo é chamado para uma aventura, enfrenta diversos perigos para, posteriormente, retornar ao seu lar com muitos aprendizados – um exemplo clássico da aplicação da jornada.

Outra prova de que o mito não é apenas .um tipo de narrativa ou interpretação de mundo ultrapassado é o fato de que até hoje existe a tendência de “mitificar” indivíduos e acontecimentos: com a ajuda da mídia, tomamos como verdadeiras certas características das pessoas ou certas explicações das coisas, sem que tenhamos exatamente uma motivação racional para isso. E os mitos criados peia cultura pop são muitos: de cantores de rock a celebridades instantâneas. Também na linguagem atual há um bom exemplo disso. Nas redes sociais, vem circulando o neologismo “mitar”, que significa realizar algo de maneira extraordinária, admirável e marcante. Quando alguém faz algo fora do comum, diz-se que essa pessoa “mitou”.

Diferentemente de uma simples crença, o mito tem uma finalidade: ajuda a definir modelos de comportamento, expressando valores comuns a uma sociedade.

Até que ponto a Filosofia rompe com a mitologia? Na Grécia Antiga, a Filosofia nascente buscou, a partir do pensamento e da racionalidade, formular respostas para questões exploradas pelo mito, como a da origem do mundo. Algumas propostas racionais filosóficas muitas vezes tinham espantosa semelhança com formulações míticas, como a ideia proposta pelo pelo filósofo Tales de Mileto (aprox. 624-558 a.C) de que a água é a origem de todas as coisas, enquanto, para a mitologia grega, o deus Oceano originou a vida. Nesse sentido, pode-se falar em uma continuidade entre mito e Filosofia, e não em uma ruptura radical sem comunicação mutua. A novidade está na abordagem, já que a Filosofia busca um princípio racional de explicação.