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Exame vestibular – o que eles esperam de você?




O exame de Redação no vestibular não é um concurso literário. Sua função é verificar se o estudante está informado sobre os grandes temas postos em discussão na atualidade e se ele é capaz de produzir um texto claro e bem argumentado sobre um desses temas.
A produção de um texto com essas características pressupõe que seu autor demonstre capacidade para fazer julgamentos críticos. Já abordei isso no artigo em que ensino como se faz um texto dissertativo com começo, meio e fim. Você pode acessá-lo por este link ou pelo link no topo desta página do blog. Além do que foi dito, para a obtenção de uma nota de redação diferenciada, é necessária a posse de três grandes competências:

1ª competência
Apreender a questão posta em debate.

2ª competência
Produzir o texto num registro linguístico adequado.

3ª competência
Posicionar-se sobre essa questão de maneira crítica, convincente e, se possível, criativa.

A competência para aprender a questão posta em debate

O principal motivo para anular uma redação no vestibular é o candidato fugir do tema, isto é, dissertar sobre um assunto que não foi proposto. Isso denuncia que lhe faltou competência para apreender a questão posta em debate. Trata-se de uma incompetência de leitura, e não necessariamente de redação. A dificuldade de identificar o tema sugerido para reflexão pela banca examinadora acaba gerando textos que, em maior ou menor grau, distanciam-se do esperado.

Por diversos motivos, há situações em que essa apreensão não ocorre. Vejamos um exemplo.

No vestibular do meio do ano de 2001, a Fundação Getúlio Vargas apresentou o tema de redação a partir de um fragmento do artigo “A gestão para resultados como ferramenta administrativa nas organizações do terceiro setor”, de autoria de Luiz Rodovil Rossi Jr. Eis o texto, extraído de uma revista eletrônica:

Cresce a confiança depositada nas organizações de um setor em constante e forte expansão no Brasil e no mundo: o chamado terceiro setor. Nesse setor, as organizações são privadas e sem fins lucrativos e complementam as iniciativas do setor governamental e do setor privado no atendimento de diversas necessidades da sociedade e na formação de um sistema econômico mais justo e democrático.
Nessas organizações, se encontram, em sua grande maioria, os indivíduos que valorizam o ser humano de uma maneira intensa e que estão inconformados com as desigualdades sociais e econômicas que a lógica da economia de mercado acaba ignorando, e que o Estado do bem-estar social se mostrou incapaz de resolver.
O crescimento da consciência comunitária encontra, nessas organizações, um ambiente favorável a sua aplicabilidade. Os valores predominantes, bastante adequados para os que trabalham no desenvolvimento dessas organizações, são: democracia, transparência, coletividade, flexibilidade e criatividade.

ROSSI R., Luiz Rodovil. .4 gestão para resultados como ferramenta administrativa nas organizações do terceiro setor. Integração – A revista eletrônica do terceiro setor. Ano IV, n. 2. maio)




Alguns candidatos às concorridas vagas do vestibular da FGV-SP cometeram o deslize de ler descuidadamente o texto proposto como base para a discussão. Em lugar de “terceiro setor”, alguns entenderam “setor terciário”; assim, em vez de dissertar sobre a importância do trabalho voluntário e comunitário, escreveram sobre a importância do setor de serviços na sociedade contemporânea. Essa confusão indica duas coisas: ou a apreensão do tema não foi bem feita (para evitar isso, convém dedicar mais tempo à leitura do texto) ou, pior ainda, aqueles candidatos não sabiam o que era “terceiro setor” (nesse caso, vale lembrar que o repertório cultural de cada um está sendo avaliado no exame de Redação).

A competência para produzir o texto num registro linguístico adequado

O candidato deve considerar a ideia de que todo texto é aperfeiçoável ao infinito. Por isso, convém usar a própria linguagem da maneira mais caprichada que o tempo disponível permitir. Isso não quer dizer que a redação deva ser escrita numa linguagem empolada e falsamente sofisticada.

Veja o que a Fuvest diz a esse respeito:

Serão examinados pontos como a propriedade e a abrangência do vocabulário empregado, além de ortografia, morfologia, sintaxe e pontuação. A ocorrência de clichês e frases feitas, o uso inadequado de vocábulos são aspectos, em princípio, negativos.

Disponível em: www.fuvest.br.

Essas observações apontam para a competência linguística em sentido amplo que os textos devem manifestar — no caso da dissertação, o domínio da norma culta escrita.

Muitas vezes, essa competência dá ao texto uma boa dose de credibilidade. E o que atesta este fragmento de um editorial da Folha de S.Paulo (19 mar. 2002, p. A-2) sobre a ousadia dos bandidos em ataques a prédios públicos na capital paulista:

Prédios e funcionários públicos tornaram-se alvos preferenciais dessa onda intimidatória desferida pelo crime organizado. Pode ser um indício de que, sentindo o endurecimento da polícia, os bandidos estejam ensaiando um contragolpe. Assusta a hipótese de que à já violenta rotina de São Paulo venha agregar-se um tipo de luta pseudoterrorista do crime organizado contra o Estado. Mas esse é um risco que é preciso correr se a alternativa fora acomodação à realidade da delinquência.

O texto contém vários indícios da competência linguística do enunciador — notem-se, por exemplo, a inversão sintática e as escolhas lexicais no período destacado. Além disso, a tese de que é preciso tomar uma providência em relação à “onda intimidatória desferida pelo crime organizado”, além de lícita, é defendida sem o tom ingênuo e panfletário de alguns textos que falam sobre a violência.

III. A competência para posicionar-se sobre essa questão de maneira crítica, convincente, se possível, criativa




Sobre essa iniciativa que o estudante deve demonstrar para discutir de maneira satisfatória a questão posta em debate, a Fuvest afirma:

[…] verificar-se-á a pertinência da elaboração do tema, considerando-se também a capacidade crítica e argumentativa, bem como a maturidade e a inventividade que no texto se manifestam.

Depois de apreender e compreender o tema, cabe ao candidato demonstrar “capacidade crítica e argumentativa” na elaboração do seu texto. Isso significa que ele deve mostrar-se capaz de produzir, dentro do tempo disponível (uma hora e meia ou duas horas, aproximadamente), uma redação que manifeste uma reflexão própria a respeito do tema em questão. Em outras palavras, é preciso manifestar julgamentos críticos.

Não se trata de demonstrar a posse de um conhecimento já construído e comprovado, como o que se avalia nas provas de disciplinas específicas — tanto é que elas podem ser gabaritadas. O que o exame de Redação quer avaliar é, sobretudo, a competência de usar a capacidade criadora para ensaiar respostas sustentáveis para certas questões polêmicas.

E claro que os conhecimentos adquiridos ao longo da vida escolar são importantes para a elaboração de uma boa redação, mas o que mais conta nessa prova não é a mera capacidade de reproduzir informações sobre o tema posto em discussão, mas sim a de explorá-las para encontrar uma resposta convincente, plausível e, quem sabe, criativa para o problema proposto como desafio.

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